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Dipirona pode curar coração partido? Entenda se afirmação que viralizou nas redes é verdade

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Internautas repercutiram suposta relação entre analgésicos e sofrimento emocional, mas especialistas explicam que não há embasamento científico para isso

Posts nas redes sociais alegam que dipirona pode curar dor de coração partido.

Quem não gostaria de poder curar a dor de um coração partido com apenas um comprimido? Segundo uma série de publicações que viralizaram nos últimos dias em redes sociais como TikTok e X (antigo Twitter) isso seria possível por meio de analgésicos comuns. Mas tomar uma dipirona, ou algum outro medicamento para dor, pode realmente diminuir o desconforto emocional?

Segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, a resposta é que não, tomar um analgésico não vai fazer você se sentir emocionalmente melhor. Pelo contrário, abusar dos medicamentos pode levar a problemas de saúde, como efeitos colaterais graves.

— Os analgésicos atuam em substâncias liberadas pelo tecido corporal que foi lesado, e não na sensação da dor a nível do sistema nervoso central. Então eles não são úteis para dores emocionais, que são sentidas no “cérebro”, e não no corpo — resume a neurologista Elisa Resende, vice-coordenadora do departamento científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).

As publicações repercutiram a partir de um pequeno trabalho feito com paracetamol, ou seja, um medicamento analgésico diferente da dipirona. O estudo, de pesquisadores americanos e publicado na revista científica Psychological Science ainda em 2010, no entanto é extremamente pequeno e questionado por cientistas.

— Mesmo que o estudo fosse extremamente robusto, ele não poderia ser usado como comprovação científica por ser um único trabalho. Esse resultado precisaria ser replicado em vários outros, em diferentes contextos, para ser confirmado. Mas não temos isso. Na verdade, existem estudos depois dele que tentaram, mas que mostraram que há vieses, problemas metodológicos, que impedem chegar a essa conclusão — explica Laura Marise, doutora em Biociências e Biotecnologia Aplicadas à Farmácia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e divulgadora científica no @nuncavi1cientista.

No trabalho, foram conduzidos dois experimentos, com menos de 100 participantes no total, em que os voluntários foram divididos em dois grupos. Metade tomou de 1g a 2g de paracetamol todos os dias, por três semanas, e a outra metade, placebo.

O estudo não foi do tipo duplo-cego, ou seja, os voluntários provavelmente sabiam em qual grupo estavam, o que pode influenciar o resultado. Ao fim, eles relataram como se sentiam em relação ao desconforto emocional e a experiências de rejeição social.

— O contexto do estudo, de uso prolongado e diário em altas doses, já foge do uso comum, que é pontualmente apenas quando temos dor. E eles pediram para os participantes relatarem as sensações numa escala, o que é sempre subjetivo. Para uma pessoa, uma dor nível 7 pode ser insuportável, para outra, pode ser tolerável. É um estudo fraco, que não foi bem delineado, e com muita subjetividade — continua Marise.

Resende alerta ainda que, a longo prazo, como foi no estudo, a probabilidade é que os medicamentos percam o seu efeito: — O uso contínuo e prolongado de analgésicos pode justamente tornar a dor crônica, porque o corpo se “acostuma” com eles, e a dor fica resistente.

Alterações cerebrais

Outro ponto levantado nas redes é que, no estudo, exames de imagem indicaram alterações cerebrais nos mesmos locais associados à dor física. Mas Mellanie Fontes-Dutra, biomédica e doutora em Neurociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que isso não quer dizer que os mecanismos de ambas as dores são os mesmos:

— É possível que existam sobreposições entre a dor física, onde medicamentos como o paracetamol são conhecidos em atuar, e a dor social. Mas essa dor social pode ter diferentes componentes que uma dor essencialmente física teria. Existe um componente afetivo que não pode ser desconsiderado, e não temos evidência de que medicamentos como paracetamol poderiam atuar sobre ele — diz ela, que é também professora da escola de saúde da Unisinos e coordenadora da Rede Análise.

Além de não haver benefício, as especialistas lembram que esse uso descontrolado em busca de amenizar o sofrimento emocional pode levar a novos problemas de saúde. Isso porque, embora os analgésicos sejam considerados seguros, o seu excesso, assim como de qualquer fármaco, traz riscos.

— Paracetamol é extremamente conhecido por problemas no fígado. Existem casos de transplante por excesso do remédio. E situações muito graves, em que ele não acontece a tempo, podem inclusive levar o indivíduo à morte. A dipirona, por sua vez, já foi proibida em outros países pelo excesso causar problemas na medula óssea. Os remédios são seguros no geral, mas o abuso pode levar a esses efeitos adversos graves que vemos na bula — cita Marise.

Fontes-Dutra destaca ainda que esse tipo de alegação nas redes sociais pode ser mais perigoso no contexto em que o alvo são pessoas que estão em sofrimento emocional, ou seja, numa situação de maior vulnerabilidade:

—Muitas pessoas sofrem com dor social, e podem acabar recorrendo a soluções mais rápidas para evitá-la. Somos uma espécie que evita a rejeição social pois, no curso evolutivo, permanecer vinculado ou fazer parte de grupos sociais pode ter trazido proteção e segurança. Na neurociência, quando um vínculo é rompido, a plasticidade neural será necessária para reorganizar essas conexões e isso requer tempo. É como um luto, existem fases e precisamos respeitá-las e passar por elas. Se você estiver passando por alguma dor social e isso estiver te impondo grandes dificuldades na sua rotina, procure por ajuda especializada.

O Globo

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