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Consumo de frutas e hortaliças vai superar alimentos ultraprocessados

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Os brasileiros, nos últimos 20 anos, passaram a optar por alimentos mais saudáveis, como frutas e hortaliças

O consumo brasileiro de frutas e hortaliças cresceu nos últimos vinte anos e tende a aumentar ainda mais até 2040, ocupando o espaço dos alimentos ultraprocessados. Isso é o que aponta um relatório publicado em março deste ano pela Hortifrúti Brasil, revista do Centro de Estudos Avançados em Economia da Universidade de São Paulo (CEPEA-USP).

O documento não indica a taxa de crescimento do consumo de produtos orgânicos ao longo dos últimos anos, mas aponta que a inteligência artificial será forte aliada do setor de Hortifrúti nos próximos vinte anos, já que trará melhor eficiência e qualidade aos setores produtivos.

Daiana Braga e Renata Menezes, autoras da pesquisa, relatam que chegaram à essas conclusões a partir da análise de documentos elaborados por importantes organizações e consultorias globais, como a Euromonitor, Mintel e FAO/ONU.

De acordo com o relatório, o ápice do consumo de ultraprocessados ocorreu entre os anos 2000 e 2010, com a popularização das refeições prontas, como salgadinhos e biscoitos recheados, e das redes de fast-food.

Porém, a partir de 2010, com a popularização das redes sociais, os brasileiros começaram a compartilhar na Internet o que consumiam e despertaram para os riscos associados ao consumo elevado de ultraprocessados, já que os altos índices de sódio e açúcares presentes nestes produtos pode contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes. O Guia Alimentar para População Brasileira, lançado em 2014 e elaborado pelo Ministério da Saúde também consolidou essa nova percepção.

Novos hábitos

Esses eventos engatilharam o aumento da procura por “comida de verdade”, caracterizada por receitas que utilizam alimentos in natura ou minimamente processados. Segundo Renata Oliveira, nutricionista, existem pequenas diferenças entre as duas categorias, já que alimentos in natura são aqueles obtidos diretamente de plantas ou de animais – como folhas e frutos ou ovos e leite – e que são enviados para consumo sem alterações industriais. Por outro lado, os minimamente processados são alimentos in natura que foram submetidos a alterações mínimas, como raízes e tubérculos lavados ou grãos moídos na forma de farinhas.

Pedro Leal, profissional autônomo, relata que começou a abandonar os alimentos industrializados justamente a partir de 2010. “Demorou e foi difícil, mas comecei. Antes, lanchava salgadinhos e bebia refrigerante todos os dias. Comecei a diminuir para uma vez por semana, até parar de vez. Sentia fisicamente a melhora, parecia que carregava um peso no corpo. Quando você percebe essa diferença, fica muito mais fácil “resistir” à vontade”, conta.

Waldyr Promicia, produtor de limão e vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), pontua que o aumento pela procura de alimentos orgânicos nos últimos anos é perceptível. “Quando comecei a trabalhar com exportações de (limão) orgânico em 2015, jamais poderia imaginar que toda a minha produção poderia ser comercializada (inteiramente) como orgânica”,

A conscientização para a necessidade de consumir alimentos orgânicos se consolidou durante o período da pandemia de Covid-19, consequência da maior busca por hábitos saudáveis e do aumento de refeições dentro de casa. “Depois do Covid-19, a busca por limão, verduras e legumes foi muito forte. O pessoal começou a se preocupar mais com saúde, com a qualidade dos produtos”, relata ainda o vice-presidente da Abrafrutas.

Cadeias produtivas

A pesquisa feita pela Hortifrúti Brasil aponta que essas tendências devem perdurar até 2040, mas também indica que os brasileiros estão cada vez mais críticos em relação ao que consomem, principalmente pela facilidade de se encontrar informações sobre os produtos.

Gilmar Henz, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), afirma que fabricantes que implementam processos sustentáveis e transparentes em suas cadeias produtivas, como sistemas de agrorastreabilidade, estão sendo mais procurados pelos consumidores.

“Esses sistemas de agrorastreabilidade permitem que o consumidor tenha acesso (através da leitura de um QR Code) ao caminho percorrido pelo produto agrícola durante toda a sua cadeia produtiva, do campo onde foi cultivado até o mercado onde está o consumidor final. Também é possível verificar quais tipos de fertilizantes ou pesticidas foram utilizados no produto”, explica.

O consumo mais criterioso também está ligado à procura de alimentos mais nutritivos. Henz relata que o setor de hortifrúti já atende à esta demanda, sendo capaz de modificar geneticamente os alimentos para que seus nutrientes sejam fortificados, como cenouras com maior teor de betacaroteno, por exemplo.

Nesse sentido, a inteligência artificial ainda será forte aliada do setor produtivo nos próximos anos, principalmente na personalização do consumo. “Ela tem um potencial enorme. Através de um algoritmo, a inteligência artificial consegue prever e correlacionar a preferência de certas populações com sabores específicos”, relata o pesquisador da Embrapa.

A Tarde – * Sob a supervisão da editora Cassandra Barteló