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Especialistas alertam para importância do voto diante da indecisão

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Dados do TSE referentes às eleições de 2022 mostram que votos brancos e nulos superaram 10% em algumas disputas no DF. Especialistas defendem a participação no pleito para evitar que “outros decidam por você”

Para as campanhas, o grupo que não definiu o voto representa um dos principais focos de atenção -  (crédito: maurenilson)

A margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos

A 66 dias das eleições de 2026, uma parcela do eleitorado do Distrito Federal parece distante do processo eleitoral por várias razões, mas para alguns, a decisão pode ser justamente não escolher ninguém. De acordo com especialistas ouvidos pelo Correio, votos brancos e nulos podem expressar insatisfação, falta de identificação ou descrença na política, e os números das últimas eleições mostram que esse comportamento tem peso. Mas alertam para os efeitos que esse ato pode causar.

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas eleições de 2022, 32.163 eleitores do DF anularam o voto para presidente, enquanto 25.162 escolheram a opção em branco. A proporção aumentou nas demais disputas. Para governador, foram 65.969 votos em branco e 86.472 nulos. Na eleição para o Senado, o índice cresceu ainda mais: 119.075 votos em branco e 109.373 nulos, o equivalente a 12,64%.

Os números mostram que a relação do eleitor com a urna muda conforme o cargo. Uma mesma pessoa pode escolher um candidato para presidente e, logo depois, decidir não indicar nenhum nome para outra função. A urna registra cada manifestação separadamente.

No Brasil, o eleitor é obrigado a comparecer às urnas, mas não a escolher um candidato. Segundo o TSE, é possível votar em branco ou anular a escolha quando nenhum dos nomes disponíveis representa o eleitor. Esses registros não são transferidos para o candidato que estiver na frente nem têm força para cancelar uma eleição. São contabilizados estatisticamente, enquanto somente os votos válidos entram na definição do resultado.

Decisão

O estudante de direito Gabriel Fernandes, 22 anos, anulou os votos para presidente e governador em 2022. Na época, votava pela primeira vez e não se identificava com os candidatos disponíveis. “As propostas dos candidatos não estavam alinhadas com meus princípios, então eu entendi que anular essa escolha seria a melhor opção para aquele momento”, contou.

Quatro anos depois, a posição mudou. Gabriel sabe em quem pretende votar e reconhece que hoje faria diferente. “Eu tenho meus candidatos e sei muito bem qual é minha escolha. Me arrependo um pouco de ter anulado meu último voto, mas era a primeira vez em que estava indo às urnas, era muito jovem e não entendia bem o impacto dessa opção. Hoje, me encontro em um momento diferente da minha vida”, diz.

Cientista política e especialista em relações governamentais, Jackeline Brito entende que o afastamento de parte do eleitorado pode nascer da sensação de que nenhum nome disponível representa aquilo que pensa. “Esses votos, na prática, expressam uma insatisfação do cidadão com as opções dadas pelos partidos. O eleitor não está se sentindo representado por nenhuma das opções que aparecerão na urna”, explicou.

A polarização pode afastar eleitores que não se reconhecem nos principais grupos políticos. “Quem não se encaixa em nenhum dos dois lados e não vê uma terceira via com chance real acaba indo para o branco ou para o nulo”, afirmou Jackeline.

Grupos distintos

Indecisos e eleitores que resolveram não escolher ninguém aparecem, muitas vezes, próximos nas pesquisas, mas não representam necessariamente o mesmo comportamento. Nesse grupo, entram fatores como desconhecimento dos candidatos, falta de clareza sobre o cenário e dificuldade para avaliar as chances de cada candidatura. “Os indecisos são um grupo diferente: estão em dúvida entre duas ou mais opções, não fecharam a rejeição a ninguém. Sem entender bem o cenário, fica difícil fazer um voto estratégico”, analisou.

A última pesquisa Correio/Opinião Inteligência Política sobre a disputa pelo governo do DF reforça o tamanho desse eleitorado sem uma escolha definida. O levantamento foi realizado presencialmente entre 11 e 15 de junho, em 33 regiões administrativas, e aponta que 16,7% dos entrevistados não votariam em nenhum dos nomes apresentados ou optariam pelo branco ou nulo. A pesquisa está registrada no TSE sob o número DF-08746/2026.

O percentual, no entanto, não significa que todos esses eleitores necessariamente manterão a posição até outubro. Parte pode escolher um candidato durante a campanha, enquanto outra pode não comparecer às urnas.

Peso eleitoral

Professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB), Valdir Pucci identifica na decepção com a política uma das principais razões para o afastamento das opções apresentadas. “O principal fator, sem dúvida, é a profunda desilusão com a situação política. Quando o eleitor opta pelo voto branco ou nulo, ou permanece indeciso, ele manifesta um desgaste que transcende a figura deste ou daquele candidato”, esclarece.

Para ele, a insatisfação pode ser direcionada ao próprio funcionamento da política, e não apenas a uma candidatura específica. “O problema, na perspectiva do eleitor, não reside no candidato ‘A’ ou ‘B’, mas na própria dinâmica da política brasileira e na percepção de que os atores políticos não estão comprometidos com a resolução dos problemas nacionais, priorizando interesses particulares em detrimento do bem comum”, assegura.

Como votos brancos e nulos não integram os votos válidos, ficam fora do cálculo usado para definir os vencedores. Nas eleições majoritárias, por exemplo, a maioria é calculada considerando apenas os votos válidos. “Em termos matemáticos, quanto maior o número de abstenções, votos brancos e nulos, menor o número absoluto de votos necessários para que um candidato alcance a vitória”, pontua Pucci.

Isso não significa que esse comportamento determine sozinho o resultado. A maior parte do eleitorado continua escolhendo candidatos e partidos. “Como cerca de 80% do eleitorado vota de forma válida, o impacto dessas decisões não anula a necessidade de os candidatos travarem uma disputa intensa pelo voto do eleitor”, completa.

Olho aberto

Para as campanhas, o grupo que não definiu o voto representa um dos principais focos de atenção. Cada ponto percentual pode ganhar importância em uma disputa equilibrada. O desafio, contudo, não é simplesmente transformar todos esses eleitores em apoiadores, mas compreender o grau de rejeição e de abertura de cada grupo. “A leitura desse número não pode ser feita apenas como um espaço livre para conquistar. Ele acende um alerta para o fato de que a eleição pode ser decidida por poucos pontos”, aponta Jackeline.

Para Pucci, antes mesmo de convencer o eleitor sobre um nome, as campanhas precisam estimular a participação. “O primeiro desafio dos candidatos é convencer o eleitor a comparecer às urnas. Embora seja obrigatório, a facilidade de justificar a ausência ou o baixo valor das multas eleitorais permitiu que uma parcela do eleitorado se sentisse confortável em se abster”, explica.

Para quem decide não escolher nenhum candidato, a decisão pode funcionar como uma forma de manifestação política. O direito, porém, não deve ser confundido com a capacidade de interferir diretamente no resultado. “Em um regime democrático, o ato de não escolher é uma escolha. Quando o eleitor não vislumbra, entre os candidatos apresentados, uma alternativa que satisfaça suas expectativas, ele exerce sua prerrogativa de não validar nenhuma das propostas”, considera Pucci.

Jackeline destaca como legítima a decisão, mas chama atenção para o efeito prático dela. “Não votar em ninguém é uma escolha válida dentro da democracia, sim. Esse eleitor que decide não votar em ninguém renuncia à capacidade de influenciar o resultado. Ou seja, ele continua sendo afetado pela gestão de quem ganhar, não importa o motivo. A democracia tem um custo, uma decisão mal tomada, ou não tomada, cobra seu preço.

Outras vozes

A professora Mariana Alves, 29 anos, conta que decidiu não escolher nenhum candidato nas últimas eleições por não se sentir representada pelas opções disponíveis. Para ela, a decisão não significa falta de interesse pela política, mas uma forma de demonstrar desapontamento. “Eu não acho que votar em branco ou anular seja simplesmente não querer participar. Eu acompanho política, sei o que está acontecendo e tenho minhas opiniões. O problema é quando você olha para a urna e não encontra ninguém que realmente represente aquilo que você pensa”, destaca.

Mariana afirma que a decisão foi uma forma de evitar um voto dado apenas por obrigação. “Eu não queria votar em alguém só porque era menos pior ou porque todo mundo estava dizendo que aquele era o candidato certo. Naquele momento, preferi não escolher nenhum. Foi uma decisão consciente”, ressalta.

Para 2026, ela não descarta repetir a opção, mas admite que a campanha pode mudar sua avaliação. “Se aparecer alguém que me convença, eu vou votar. Não tenho uma decisão fechada. Mas não acho que eu tenha que escolher alguém só para preencher a urna”, conclui.

Nova escolha

Os números de 2022 mostram que o eleitor que chega à urna sem um candidato escolhido representa uma parcela significativa do eleitorado do Distrito Federal. Em algumas disputas, a soma dos votos brancos e nulos ultrapassou 10%.

Mais do que um bloco homogêneo, esse público reúne comportamentos diferentes. Há quem esteja insatisfeito com a política, quem não se identifique com as candidaturas, quem  esteja avaliando as opções e quem já tenha decidido não escolher ninguém.

No fim, a liberdade permanece nas mãos do eleitor. Ele pode escolher um nome, optar pela tecla “Branco” ou invalidar a própria manifestação. O que muda entre uma alternativa e outra é o peso que ela terá na definição do resultado: somente os votos válidos entram nessa conta