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Quando o agressor mora em casa: o desafio de proteger a infância no Brasil

2026
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O Brasil enfrenta uma crise humanitária silenciosa que ocorre dentro de quatro paredes. Dados recentes do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania revelam um cenário devastador: as denúncias de violência infantojuvenil cresceram assustadores 120% em apenas cinco anos.

O salto de 73.635 registros em 2020 para 165.413 em 2025, monitorado pelo serviço do Disque 100, não é apenas um ajuste estatístico ou reflexo de uma maior propensão a denunciar; é o sintoma de uma sociedade que falha sistematicamente em proteger sua parcela mais vulnerável.

O ritmo de 2026 é ainda mais preocupante, com 115.814 denúncias registradas apenas no primeiro quadrimestre, indicando, conforme alertas da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, que o teto histórico será novamente superado. A anatomia dessa violência é cruel. Das violações reportadas este ano, 32 mil referem-se a crimes sexuais, dado que encontra eco nas notificações do Ministério da Saúde/Sinan, que em estados como São Paulo chegam a representar 90% dos casos de violência física notificada, de acordo com análises do UNICEF Brasil.

O perfil das vítimas desenha uma tragédia de gênero e idade: a maioria é do sexo feminino, concentrada na faixa etária de 4 a 8 anos, segundo os registros epidemiológicos do Sinan. O dado mais perturbador, contudo, reside na origem da agressão. Longe de ser um perigo externo, o autor da violência é, em regra, uma pessoa de confiança: pais, padrastos e familiares próximos.

A casa, que deveria ser o santuário da infância, consolidou-se como o principal cenário de abusos, negligências e torturas físicas e psicológicas. Essa crise de violência apresenta múltiplas dimensões. Além do abuso sexual, a negligência e a exploração seguem destruindo o desenvolvimento cognitivo e emocional de milhões de jovens.

A reiteração desses crimes sob o teto familiar evidencia a fragilidade das nossas redes de monitoramento. Se o agressor é quem detém a guarda e o afeto da criança, o Estado e a sociedade civil precisam ser muito mais do que receptores de denúncias via disque 100; precisam ser agentes de busca ativa e prevenção primária, conforme preconizam as diretrizes do UNICEF Brasil para a proteção integral.

Para reverter este quadro, é imprescindível que o Brasil avance em duas frentes. Primeiro, na educação protetiva nas escolas: crianças precisam ser ensinadas, de forma lúdica e adequada à idade, a identificar toques inadequados e a diferenciar segredos saudáveis de ameaças.

Segundo, é urgente o fortalecimento orçamentário dos Conselhos Tutelares e das delegacias especializadas, pauta defendida pelo Senado Federal, garantindo que a denúncia resulte em punição efetiva e acolhimento psicossocial imediato.

Não podemos aceitar que o crescimento das estatísticas seja normalizado. Proteger a infância não é uma escolha política, é o requisito básico para a existência de um futuro minimamente civilizado.

  • Artigo de Joice Martins Diaz*. Joice Martins Diaz é Pedagoga e Mestre em Educação. Além disso, é professora e coordenadora dos cursos de Pós-graduação em Educação do Centro Universitário Internacional Uninter.