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Do nível socioeconômico ao número de relacionamentos anteriores: o que faz um casal durar mais?

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Especialistas avaliam fatores que influenciam positivamente o relacionamento saudável

Todos conhecem algum casal tido como referência. Eles costumam ser exemplos esperançosos de que existe o amor perfeito e que nem todos os relacionamentos terminam cerca de quatro anos depois em uma separação dolorosa. Os cantores Rosalía e Rauw Alejandro foram um desses casais até que a notícia da separação foi oficializada há uma semana, deixando órfãos milhões de fãs sem um modelo romântico para admirar.

Para tentar evitar isso na medida do possível, veja abaixo uma lista de fatores que influenciam positivamente a saúde e a duração de um casal, na opinião de especialistas e estudos científicos:

Diferença de idade pequena ou inexistente
Existem dois clichês inevitáveis quando se fala em diferença de idade entre um casal. O primeiro é o famoso ditado: “O amor é cego”. O segundo é a regra de origem desconhecida que sugere somar o número sete à metade da própria idade para encontrar um limite aceitável. Mas a ciência, frequentemente contrária a verdades absolutas, refutou essas crenças historicamente arraigadas.

As estatísticas não mentem: a idade realmente importa ao escolher um parceiro, e a diferença de ideal é, na verdade, muito menor que sete anos.

A Universidade Emory (Atlanta) realizou uma análise de mais de 3 mil casais para entender melhor como a diferença de idade pode afetar a estabilidade de um relacionamento. Os resultados desta pesquisa revelaram que casais com diferença de apenas um ano têm 3% a mais de chances de se separar do que aqueles da mesma idade.

A psicóloga especializada em relacionamentos Paloma Rey explica que pessoas com pouca diferença de idade tendem a compartilhar mais experiências de vida, referências culturais e estágios de desenvolvimento pessoal.

— Tudo isso promove vínculos emocionais mais profundos e objetivos compartilhados, o que, por sua vez, atua como um fator de proteção dentro do relacionamento, tornando-o mais resistente a conflitos e diferenças ao longo do tempo — afirma.

Por outro lado, Javier Ares Arranz, terapeuta especializado em relacionamentos românticos, afirma que, nesses casos, entender e validar a perspectiva do outro dentro do relacionamento é fundamental:

— Se um dos membros do casal for significativamente mais velho, pode ter preocupações com sua saúde ou com como a sociedade pode perceber o relacionamento. Se essas preocupações forem discutidas abertamente, o casal pode trabalhar em conjunto para encontrar soluções aceitáveis para ambas as partes.

Embora as estatísticas indiquem o contrário, sempre há casos célebres que contradizem as normas. Por exemplo, o lendário casal de Hollywood formado por Humphrey Bogart e Lauren Bacall, com uma diferença de idade de mais de 25 anos. Eles se conheceram durante as filmagens de “Uma Aventura na Martinica” (1944), quando Bogart tinha 45 anos e Bacall, 19.

Um caso ainda mais controverso é o de Woody Allen e Soon-Yi Previn, que era a filha adotiva de sua parceira (Mia Farrow) quando se conheceram, com uma diferença de idade de cerca de 35 anos. Sem mencionar o presidente francês Emmanuel Macron e sua esposa Brigitte Macron, que têm uma diferença de idade de 24 anos e se conheceram quando o líder ainda estava no ensino médio.

Polos opostos não se atraem, nem formam bons casais
Para ter sorte no amor, o ideal é procurar alguém que seja semelhante. Várias pesquisas psicológicas e sociológicas refutaram a ideia comumente aceita de que os opostos se atraem, uma noção que muitas vezes funciona melhor na ficção romântica do que na vida real. Na realidade, casais que compartilham semelhanças em várias facetas tendem a ter relacionamentos mais duradouros e saudáveis.

Levado a um extremo, um estudo realizado em 2008 concluiu que ter uma aparência física semelhante é um fator determinante para que ocorra uma atração física inicial e para manter a conexão física a longo prazo. Outro estudo de 2010 descobriu que casais que estavam juntos há muito tempo tendiam a ser semelhantes em atratividade física.

Este ponto abrange muitos outros aspectos. Por exemplo, um estudo de 2014 publicado pelo National Bureau of Economic Research analisou o efeito do “casamento seletivo”, ou seja, a tendência de buscar parceiros semelhantes a si mesmos em termos de educação e status socioeconômico. Os autores descobriram que a homogamia socioeconômica (casais que são semelhantes em termos de educação e status socioeconômico) está associada a maior estabilidade nos relacionamentos e menores taxas de divórcio.

Outro estudo publicado em 2013 concluiu que casais que se conheceram online (onde é mais fácil selecionar alguém com base em características específicas como status socioeconômico) tinham taxas de divórcio significativamente mais baixas e relatavam maior nível de satisfação conjugal.

Será essa evidência científica a razão pela qual as pessoas tendem a se relacionar com indivíduos de status socioeconômico semelhante e por que os famosos frequentemente namoram outros famosos?

Talvez, mas também há muitos exemplos de celebridades que tiveram ou têm relacionamentos duradouros com pessoas não famosas, como as atrizes Maisie Williams, Julia Roberts, Anne Hathaway ou Reese Witherspoon; ou os atores Aaron Paul, Matt Damon, Eddie Redmayne ou Ethan Hawke. Um exemplo da realeza: o príncipe William da Inglaterra conheceu Kate Middleton na Universidade de St. Andrews em 2001.

Família estável e amorosa
Sigmund Freud afirmou: “Um homem que foi o favorito incontestável de sua mãe mantém pelo resto da vida a sensação de um conquistador.” Essa citação é complementada por um estudo que apoia a ideia de que nossas experiências familiares iniciais podem afetar nossa saúde e a qualidade de nossos relacionamentos românticos na vida adulta.

Os pesquisadores selecionaram 60 bebês e avaliaram seu nível de “apego seguro”. Uma teoria psicológica identificou os principais tipos de apego: seguro, evitativo, ambivalente e desorganizado. Cada estilo tem características e padrões de comportamento específicos que influenciam os relacionamentos ao longo da vida. O apego seguro é um estilo em que uma pessoa se sente confortável e segura em buscar apoio emocional e proximidade com seus cuidadores.

Os cientistas avaliaram o nível de apego dos bebês observando como eles interagiam com seus cuidadores em uma situação controlada. Vinte anos depois, mediram novamente o nível de apego por meio de uma entrevista. Descobriram que aproximadamente 72% dos participantes mantiveram a mesma classificação de apego seguro ou inseguro na idade adulta, em comparação com suas classificações de apego na infância. Isso significa que as primeiras experiências de apego na infância tenderam a influenciar como eles se relacionavam com os outros como adultos jovens.

Paloma Rey argumenta que “se crescemos em um ambiente familiar disfuncional, com figuras de autoridade ausentes ou negligentes no cuidado de nossas necessidades, é provável que desenvolvamos apego ansioso, evitativo ou desorganizado”. Isso favorece a formação de relacionamentos instáveis e desequilibrados.

Por outro lado, “se nossos modelos de referência mantiveram um relacionamento baseado na confiança, comunicação assertiva, respeito e afeto mútuo, é provável que desenvolvamos um apego seguro”.

Amizade antes do casamento
A maioria dos relacionamentos românticos se originam de amizades. De acordo com um estudo da Universidade de Victoria, no Canadá, 66% dos casais se formaram a partir de uma amizade.

No ano passado, um jornalista defendeu na revista The Atlantic os benefícios de iniciar um relacionamento romântico com um amigo. Para apoiar esse ponto de vista, ele citou Jessica Cameron, professora de psicologia da Universidade de Manitoba, que tem pesquisado a transição de “amigos para amantes”. Cameron suspeita que os casais que começam como amigos tendem a ter relacionamentos mais felizes e fortes em média.

Javier Ares Arranz argumenta que começar um relacionamento romântico a partir de uma amizade tem seus próprios prós e contras:

— Começar como amigos fornece uma base sólida para um relacionamento romântico. Quando você já se conhece bem, pode compreender profundamente as forças, fraquezas, valores e objetivos de vida um do outro — diz, considerando que há desafios nessa transição. — Um dos mais comuns é a preocupação de arriscar a amizade existente. Se o relacionamento romântico não der certo, isso poderia afetar ou até mesmo terminar a amizade. É importante abordar essas preocupações de maneira aberta e honesta”.

Este é um dos pontos mais controversos. “Você teve poucas mulheres, eu tive muitos homens. A média é equilibrada, poderíamos formar um casal honesto”, diz o personagem de Jeanne Moreau no filme “Jules e Jim” (1962) quando propõem casamento a ela. No entanto, como revela o desfecho do filme e várias pesquisas, as coisas nem sempre funcionam assim.

Vários estudos exploraram a relação entre o número de parceiros sexuais e a satisfação conjugal. Em algumas análises, pesquisadores descobriram que pessoas que haviam tido mais parceiros sexuais antes do casamento afirmavam ter menos satisfação em seus relacionamentos.

No entanto, também observaram que esse efeito era moderado ao incluir variáveis como religião e atitude em relação ao sexo casual. Por exemplo, em pessoas com fortes crenças religiosas ou não muito entusiastas do sexo casual, o efeito do número de parceiros sexuais na satisfação conjugal poderia ser menos pronunciado.

O estudo também concluiu que pessoas que haviam tido mais parceiros sexuais eram menos propensas a se casar e que pessoas que chegam ao casamento virgens tinham uma taxa de divórcio muito mais baixa.

O amor evolui e muda ao longo do tempo, e a duração de um relacionamento não necessariamente reflete o afeto real entre as pessoas envolvidas. O casamento, em uma época em que o divórcio não era consentido e não se permitia escolher o parceiro, poderia durar toda a vida, mas não necessariamente significava um amor bem-sucedido ou sincero.

Relacionamentos duradouros? São ótimos, mas acima de tudo, satisfatórios. Mesmo que não seja a morte que os separe.