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O beijo de Lula no Papa Francisco

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‘Habemus’ presidente da República. O Brasil é novamente respeitado, pela defesa da dignidade humana

Lula abraça o Papa Francisco, em encontro no Vaticano para falar sobre a paz e o fim da desigualdade

O Brasil está grudado hoje no julgamento de um fascista, que se esmerou em tentar destruir tudo, democracia, voto, paz, floresta, indígenas, saúde, e até o caráter nacional. Mas o personagem da semana é outro. Felizmente. Luiz Inácio Lula da Silva, 77 anos, reeleito presidente apesar das violentas tentativas de fraude e golpe de Estado. Lula e seu belo e afetuoso encontro com Francisco, o sumo pontífice. Pontífice, segundo reza o consenso geral, vem do Latim pons (ponte) e facere (fazer). Foi um encontro entre dois construtores de pontes.

Vi e revi o momento do beijo de Lula no rosto do Papa, o abraço de olhos fechados e o sorriso de companheiros, cúmplices na luta contra a pobreza e na defesa do meio ambiente. Comungam em temas que influenciam a vida e o futuro do Brasil e no mundo. Eles podem discordar em temas específicos, como o apoio de Lula ao autocrático Maduro, na Venezuela. E o pendor de Lula por Vladimir Putin, na guerra da Ucrânia, e suas críticas à Europa. Mas, na essência, no respeito à dignidade humana e na luta contra a desigualdade, estão do mesmo lado. Modestamente, eu também estou.

A viagem de Lula à Itália, onde se encontrou com a primeira-ministra de extrema-direita e líderes de centro-esquerda, dá orgulho e alívio. Habemus presidente da República. É o pragmatismo em ação, sem abandonar os amigos, como o prefeito de Roma, Roberto Gualtieri, que visitou Lula na prisão em Curitiba. A clara defesa da Amazônia, sem deixar de elogiar a matriz energética do Brasil, dá aquele calor bom na alma. Lula nunca reuniria 40 embaixadores para falar mal do país, de nossas leis e nosso sistema eleitoral. É uma questão de inteligência emocional e política. De princípios e fins. Algo que o ex-presidente, prestes a se tornar inelegível, nunca teve.

Bolsonaro jamais se encontrou ou sequer falou ao telefone com o Papa durante seu mandato. Não poderia. Durante a pandemia, o Papa defendeu “a cultura do cuidado”, o cuidado com o outro, a fraternidade, a floresta. Bolsonaro alfinetou Francisco: “O Papa falou que a Amazônia é dele, do mundo, de todo mundo. O Papa é argentino, mas Deus é brasileiro”, disse, rindo com o esgar asqueroso e conhecido. Bolsonaro era presenteado com fuzis, pistolas, joias escondidas.

Ufa, acabou a ostentação do escárnio. Em novembro, após a eleição, escrevi uma coluna “Ufa, acabou!”. Acabou a ostentação da burrice, das armas, do desmatamento, da violência, do desprezo por oprimidos, mulheres, homossexuais, negros. Acabou a deturpação da bandeira. A idolatria a símbolos nazistas. Acabou a lavagem cerebral de iludidos pedindo intervenção das Forças Armadas. Louvai o Brasil gigante pela Natureza e pelo voto. Glória nas alturas. Ainda sinto arrepios ao pensar que, mancomunado com as forças mais sinistras, Bolsonaro poderia estar governando o Brasil.

Melhor mesmo é falar do encontro no Vaticano, destinado a conversar sobre um mundo mais justo. Francisco me reconciliou com a fé, eu que sou batizada e crismada mas não costumo ir à missa. “Ainda estou vivo”, disse o Papa a Lula, apoiado na bengala, lembrando sua cirurgia abdominal recente. “A paz é uma flor frágil”, era a inscrição no presente dado ao brasileiro. Lula retribuiu com uma xilogravura da Sagrada Família, do artista pernambucano J.Borges, cordelista e poeta.

O presidente brasileiro também recebeu um livro. Em 27 de março de 2020, na praça vazia na Basílica de São Pedro, no topo da escadaria, Francisco rezou pelo fim da pandemia. Uma cópia dessa oração pode ser lida em suas páginas. A primeira-dama, Janja, levou como lembrança uma imagem da padroeira da Amazônia, Nossa Senhora de Nazaré. Presentes são símbolos. Dizem muito.

Lula não é santo, já cometeu erros nesse início de mandato. Mas os acertos falam mais alto. O Brasil é novamente respeitado. Obrigada, Lula e Francisco.

Por Ruth de Aquino de ´O Globo´