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Mestre Jaime e o sorriso de ouro na eternidade da folia

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Por Emanuel Andrade*

O artista plástico, alfaiate e seresteiro, Jaime Alves Conserva, desde jovem foi um agitador cultural, antes mesmo da expressão ser adotada no meio social. Foi autodidata em quase tudo que se propôs a fazer em pleno Sertão Central, mais precisamente em Salgueiro, a 518 quilômetros do Recife. Desenhou, fez os cortes e costurou ternos para festas bailes e serestas. Há mais de meio século, passou a idealizar e dar cores vibrantes às fantasias carnavalescas que confeccionava para amigos foliões que integravam troças e blocos da cidade. Desde então, passou a abraçar a festa de Momo como a apoteose para uma vida inteira.

Mestre Jaime tornou-se a mais perfeita tradução do carnaval de rua no interior de Pernambuco. Ganhou fama do Litoral ao Sertão. Ao longo de 70 anos, extrapolou todas as barreiras que, por algum acaso, tentaram tirar seu bloco de cena. Aliás, sob sol escaldante ou chuva, sempre botou literalmente seu bloco – A Bicharada – na rua, desde o fim da década de 1940, quando o ponto de partida foi uma troça chamada “Calça Frouxa”.

Ali, começou a dar vida à sua fauna imaginária. Com papelão, papel jornal, tinta e cola feita de goma (chamada grude), o artista deu forma a cabeças de vaca, cabra, porco, zebra, galo, entre outros animais, incluindo bichos com formas exóticas indecifráveis. Os integrantes cobriam a cabeça com as máscaras e vestiam macacões florados para cair na folia até o sol se pôr.

Quando se aproximava o carnaval, Mestre Jaime corria contra tempo e se jogava diariamente na confecção das suas fantasias. Por décadas, no sábado de carnaval, ele mesmo encarnou a figura do Zé Pereira. De domingo à terça, a Bicharada dava o tom e invadia, com irreverência, ruas e avenidas arrastando foliões de todas as idades.

Por determinação do criador, a orquestra era um mero carro de som com suas cornetas, tocando as marchinhas e frevos carnavalescos do repertório afetivo que o mestre selecionava em fitas cassetes, e mais recentemente em CD.

Raras vezes, uma orquestra de frevo guiava sua turma. Trio elétrico? Nem pensar. “Nunca gostei desses caminhões cheios de microfonia e sons de guitarra. Aquilo só estressa e atrapalha, faz baderna e tira a beleza da troça e da música carnavalesca de verdade”, costumava dizer.

Em 2010 quando o governo de Pernambuco (gestão Eduardo Campos) o homenageou em todo Estado, o incansável folião não fez cara feia quando soube que iria desfilar na imensidão do Galo da Madrugada em cima de um trio. Foi lá e fez bonito. Deu seus passinhos ao lado do cantor Alceu Valença que cantava no mesmo carro. Visivelmente emocionado e encharcado de suor, soltou beijos com os dentes de ouro e foi festejado pelo público.

Nas últimas três décadas, as máscaras de animais foram saindo do roteiro, dando vez aos bonecos gigantes semelhantes aos de Olinda, todos eles arquitetados pelo folião. Fiel a si mesmo, o mestre encomendou a um artista do Recife um boneco com suas feições e se deu por realizado. Para ele, foi uma forma de eternizar sua figura cultural. Nessa fase, o pai da Bicharada chegou a se apresentar em cidades como Petrolina e Belém do São Francisco. Já na casa dos 90, jamais se entregou aos limites da idade.

Às vésperas de um carnaval passado quebrou o pé, mas não se entregou. Juntou os integrantes do bloco e desfilou em um carro alegórico feito pelo filho, o professor e também artista plástico, Jaime Conserva Filho, que dirige o Centro de Artes Popular Mestre Jaime. “Carnaval é só uma vez por ano. É uma festa do povo que vale pelos doze meses”, argumentava. Para ele, carnaval sem fantasia, sem máscara e sem palhaço, não tinha graça, era melhor nem sair. Até seu sorriso largo com dentes de ouro irradiava o ambiente onde ele dava seus passos.

Ontem, aos 98 anos, Mestre Jaime saiu de cena por falência múltipla dos órgãos e complicações na saúde provocada pela Covid-19, segundo boletim médico do hospital onde foi internado. Anos atrás, chegou a compartilhar com os filhos a sugestão para quando morresse: misturar seresta com orquestra de frevo na rota do velório até o sepultamento. Como a pandemia impediu a aglomeração, apenas um carro de som com suas marchinhas prediletas conduziu o corpo até o cemitério, com direito a uma pequena carreata.

Com a morte do carnavalesco, fica um vácuo na cultura popular deixado por um homem apaixonado pela vida e pela festa de Momo. Um personagem que será a eterna fantasia do lúdico na vida real. Um artista plural que lembra o Velho Guerreiro Chacrinha. O lado comunicador do mestre sempre esteve em todos os aspectos de seu comportamento.

E por falar em comunicação, o carnavalesco já esteve no comando de um programa na rádio Talismã, em Salgueiro, focado em seresta, outra paixão em vida. Há dez anos, produzi um documentário artesanal “O Homem da Bicharada”, sobre a trajetória do carnavalesco, seresteiro e alfaiate. A cada tomada de entrevistas Mestre Jaime se mostrou um jovem de espírito esportivo. O carnaval nunca será o mesmo sem a presença dele, mas com certeza o homem carnavalesco será sempre lembrado por sua arte. Sem a vivacidade de seu sorriso dourado, agora na eternidade. Segue em paz, Mestre!

*Jornalista salgueirense e professor universitário