Formado em Londres, Dirceu Vianna Junior afirma que produtores nacionais ignoram os avanços da vitivinicultura no exterior e exageram suas margens de lucro

Uma lembrança que Dirceu Vianna Junior guarda da infância é a imagem de seu pai degustando vinho durante o inverno no interior do Paraná. Hoje, aos 51 anos, ele é parte de um seleto grupo de especialistas que detêm o título de Master of Wine, concedido pelo The Institute of Masters of Wine, do Reino Unido. Fundado em 1955, o instituto formou apenas 389 mestres do vinho em todo o mundo. Vianna é o único brasileiro e representante da língua portuguesa detentor do título. Com passagens pelos cursos de engenharia florestal e direito em universidades brasileiras, decidiu morar em Londres em 1989 e nunca mais voltou para o Brasil. Sua carreira no setor de vinhos começou quando ele foi promovido de garçom a gerente de um restaurante londrino. No novo cargo, Vianna recebeu a missão de elaborar uma carta de vinhos. Como não conhecia o assunto, foi estudar. Três décadas depois, desenvolve diferentes projetos em empresas de sete países, é consultor para a seleção de bebidas do clube Manchester United e embaixador dos vinhos de Portugal. Durante uma passagem pelo Brasil, para visitar a família, Vianna conversou com VEJA num restaurante do Aero­porto de Guarulhos (SP) antes de embarcar para Londres, onde vive com a mulher e a filha.

É senso comum a ideia de que vinho bom é vinho caro. Isso é verdade? Não. O que mais importa nessa relação entre preço e qualidade é a finalidade do vinho. Para comer pizza e conversar, um vinho funcional, mais em conta, cumpre o papel. Mas, se o consumidor quer uma experiência diferente, degustar algo especial, uma bebida mais cara se adéqua melhor. É importante, entretanto, lembrar que vinho ruim faz mal à saúde, portanto é preciso cuidado quando a escolha se dá unicamente tendo o preço como referência. Meu maior prazer como consultor é descobrir vinhos com excelente custo-benefício, que poderiam valer cerca de cinco vezes mais.

No Brasil, costuma-se dizer que o que impede o crescimento do consumo de vinho é o preço. Como é possível popularizar a bebida sem comprometer a qualidade?

Em vários países, o vinho é considerado alimento, enquanto no Brasil é classificado como artigo de luxo. A consequência vem na forma de alta incidência de impostos. O governo tem sua parte de culpa no jogo — nesse aspecto, as empresas de cerveja são muito mais poderosas. Outro fator relevante é a elevada margem de lucro das importadoras. É fato que produtores e importadores pagam valores altos em tributos, mas também poderiam ir além de apenas culpar os impostos. Se analisarmos a margem de lucro dos produtores no Chile ou dos distribuidores de vinho na Inglaterra, veremos que seus equivalentes no Brasil têm porcentuais de ganho mais elevados.

O vinho tem forte componente cultural, associado à ideia de que é preciso ser um conhecedor do assunto para transitar entre tantas opções de uva, regiões produtoras, safras e marcas. Como reverter isso?

O consumo no Brasil é baixíssimo, de meio litro per capita por ano. Mas isso pode ser mudado com a educação do consumidor. As redes de supermercados podem cumprir bem esse papel. Na Inglaterra, nos últimos vinte anos, essas lojas realizaram um grande esforço para passar informações aos clientes, e conseguiram mudar hábitos culturais fortes. Hoje se compra mais café que chá e mais vinho que cerveja nesses varejistas. Falta, no Brasil, empenho dessas redes em ir até os produtores, e não comprar apenas dos que batem à porta oferecendo seus vinhos (nem sempre os melhores). Muitas vezes, os consumidores têm experiências ruins ao comprar um vinho funcional, mais barato e de consumo rápido, que deveria entrar e sair da loja em seis meses, mas está lá oxidado, envelhecido demais. Obviamente, quem compra essa bebida tem uma experiência ruim e diz: “Isso não é para mim”. Perdemos um consumidor.

O senhor é o único Master of Wine brasileiro e não trabalha com nenhuma vinícola nacional. Não seria natural dar uma contribuição e ter uma presença maior por aqui?

Em 2008, quando conquistei o título de Master of Wine, meu patrão em Londres tinha certeza de que eu iria voltar para o Brasil, que iriam me tirar da importadora e me chamar para trabalhar aqui. Até eu mesmo pensei que voltaria, mas nunca me procuraram com as intenções corretas. Pelo meu título, tenho de seguir códigos de conduta. Graças a Deus, não trabalho mais pensando somente em dinheiro. Hoje, sou embaixador dos vinhos de Portugal.

O Brasil produz bons vinhos?

Sim. Tenho uma adega na minha casa com cerca de 2 000 garrafas, algumas brasileiras. Além desse acervo, tenho outro de vinhos voltados para investimento, dos quais, honestamente, não sei quantas garrafas possuo. O vinho hoje é um ativo importante, como ações em bolsa de valores. Você compra, faz seguro e espera valorizar.

Qual sua opinião sobre o setor vinicultor brasileiro?
Há pessoas sérias, que fazem um excelente trabalho, mas não é algo consistente. Eu me orgulho algumas vezes de colocar uma garrafa brasileira na frente de meus amigos estrangeiros. Mas poucas vinícolas são de fato boas, não consigo encher uma mão. Se fosse pela vontade dos produtores, o mercado brasileiro seria restrito e fechado. Além disso, alguns expõem nas garrafas medalhas recebidas em competições que não têm relevância e acabam iludindo quem as compra. Para o bem dos produtores e do consumidor, o importante seria educar o brasileiro a beber com simplificação, e não tornando o processo ainda mais complicado. Ao não fazermos isso, estamos privando o consumidor de uma experiência. Cada vez que se abre um vinho, é uma viagem.

O que é preciso para melhorar a qualidade do vinho nacional?

Humildade e intercâmbio de conhecimento. Estudo todos os dias, sei que não sei tudo e continuo estudando. Quantas conferências técnicas se veem no Brasil em regiões produtoras com enólogos, Masters of Wine, pessoas que realmente conhecem? Por que não trazem? Será que eles já sabem tudo?

Se eu pedisse ao senhor que abrisse um tinto, um branco e um espumante brasileiro bons, quais seriam?

O espumante seria da Geisse, o branco da Pizzato e o tinto da Guaspari.

Ainda assim, são marcas pouco conhecidas tanto no mercado interno como no exterior. Qual é o caminho para os bons vinhos brasileiros serem conhecidos lá fora?

Meu sonho seria fazer com que os vinhos nacionais tivessem uma imagem semelhante à dos vinhos da Nova Zelândia, que são bebidas de qualidade e custam acima da média. Como o Brasil não consegue brigar em preço, a estratégia é exportar, desde que sejam produtos de primeira linha. Não podemos ter a expectativa de vender grandes volumes, com vinhos do dia a dia, porque não conseguimos competir com países como o Chile. Mas temos condições de mirar um escalão superior com produtos mais elaborados. Se o mercado fosse uma pirâmide, a perspectiva seria mirar do meio para cima, e não na base.

A diversificação é fabulosa. O Brasil está mil anos atrás dos franceses, porém com a troca de experiências seria possível encurtar a distância. Em Santa Catarina, por exemplo, há grande variedade de uvas plantadas. Com intercâmbio, já se saberia o que focar. No futuro, tenho certeza de que grandes vinhos sairão de Santa Catarina. Hoje, algumas das melhores garrafas saem de São Paulo.

O Brasil é apontado como um país com alto índice de uso de agrotóxicos nas videiras. Como o senhor vê essa questão?

É alarmante no mundo todo. No Brasil, utilizam-se mais agrotóxicos porque a umidade é elevada. Enquanto na França se trata a planta uma ou duas vezes por ano, aqui o uso é quase mensal. Os consumidores estão atentos, e é uma questão que tem de ser pensada.

Muito se fala que o aumento da temperatura global tem tornado os vinhos mais alcoólicos. Isso é fato?

Eles estão com mais álcool, mas é simplista dizer que isso ocorre apenas pelo aumento da temperatura. O avanço da técnica na viticultura e a preferência de críticos também influenciam. Com o conhecimento melhor da planta, hoje, os enólogos conseguem fazer com que ela atinja a maturação fenólica adequada — antes, eles tinham de colher a fruta por pressão do clima. Outro ponto é a preferência de críticos como o americano Robert Parker, que aprecia vinhos mais pesados e leva produtores a elaborar uma bebida ao gosto do especialista. De qualquer maneira, um vinho mais alcoólico não é problema se está em harmonia.

O mundo é um pêndulo, está sempre mudando. O Brasil está um pouco atrasado em relação à Europa. O que se fala aqui não é o que se está falando por lá. Se eu fizer degustação de biodinâmicos, não haverá interesse. É um nicho e para um público mais maduro.

Como o senhor vê a expansão da produção e do consumo na China?

O país está se tornando um dos maiores produtores de vinho do mundo. Está investindo e daqui a dez, vinte anos deve ter grandes vinhos. Já em relação ao consumo, é preocupante. Se um dia os chineses resolverem beber uma taça de vinho cada um, nós nunca mais vamos beber, não vai sobrar. Além disso, se o consumo chinês aumen­tar como está se desenhando, a bebida ficará mais cara. Por outro lado, é um mercado em potencial para o avanço das exportações de diversos países.

Se o mundo fosse acabar amanhã e o senhor pudesse tomar uma última taça, de qual vinho seria? Essa é uma pergunta difícil. Acho que seria um Romanée-Conti da safra 1990.

O senhor ainda bebe vinho por prazer ou sempre é trabalho?

Bebo nos fins de semana com muito prazer, cozinhando e ouvindo música. Tento não beber durante a semana, só faço degustações. Gosto de cozinhar, e, sem vinho, é impossível.

Publicado em VEJA de 25 de dezembro de 2019, edição nº 2666

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