Home Sem categoria Biden toma posse como presidente dos EUA em meio a crises sanitária...

Biden toma posse como presidente dos EUA em meio a crises sanitária e de segurança

58
0

Nesta quarta-feira (20), o democrata fará história ao assumir a Casa Branca em um dos momentos mais assustadores da trajetória americana

Biden toma posse como presidente dos EUA em meio a crises sanitária e de segurança

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Em seu último discurso antes de viajar a Washington e tomar posse como o 46º presidente dos EUA, Joe Biden não conseguiu conter o choro.
Agradeceu pelo apoio dos moradores de Delaware, estado onde viveu por quase 70 anos, e disse que sentia muito a ausência do filho Beau, que morreu em 2015 vítima de um câncer no cérebro. “Eu só tenho uma coisa a lamentar: ele não está aqui”, disse Biden, visivelmente emocionado.

Nesta quarta-feira (20), o democrata fará história ao assumir a Casa Branca em um dos momentos mais assustadores da trajetória americana.

Aos 78 anos, Biden é o homem mais velho a chegar à Presidência dos EUA e tem a missão de comandar uma nação dividida e devastada por uma grave crise econômica e uma pandemia que já matou mais de 400 mil pessoas no país.

As credenciais inéditas da nova era incluem Kamala Harris, a primeira mulher negra a ocupar a Vice-Presidência americana, e que vai exercer papel definitivo no que se tornou o principal desafio de Biden nos próximos anos: conseguir, de fato, governar.

O avanço da maior crise de saúde do século, a violência política e o debate do impeachment de Donald Trump devem dominar os primeiros anos da gestão democrata, e especialistas acreditam que será difícil fazer muito além desses temas até meados de 2022.

O Partido Democrata tem maioria na Câmara, e Kamala terá direito ao voto de desempate no Senado, rachado entre 50 democratas e 50 republicanos. A frágil maioria numérica, porém, não é suficiente para a aprovação de todas as medidas prometidas por Biden, principalmente daquelas que exigem ao menos 60 votos para ganhar o aval legislativo sem obstrução de opositores.

Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV-SP, lembra que Barack Obama tinha maioria ainda mais ampla que Biden no Senado no início de seu primeiro mandato, mas não conseguiu aprovar medidas significativas sobre clima e imigração, por exemplo.

Na política há 48 anos, como vereador, senador e vice de Obama, Biden sabe que terá de lançar mão de seu perfil moderado e sua conhecida habilidade conciliatória para negociar com os dois lados do tabuleiro em meio à radicalização insuflada por Trump.

Quando fizer seu primeiro discurso como presidente, pouco depois do meio-dia (14 horas de Brasília) desta quarta-feira, Biden insistirá na ideia de que os americanos precisam de união e pacificação para que a alma do país seja resgatada e suas fraturas, curadas. O democrata quer passar a mensagem de que a nação tem desafios, mas há esperança para resolver problemas.

A posse de um novo presidente tem tradição de mostrar a transição pacífica de poder nos EUA e os planos para o futuro. A primeira parte da história ficou comprometida neste ano com a recusa de Trump em comparecer à posse do sucessor, o que não acontecia há 152 anos.

No entanto, mais importante que uma retórica floreada –que não é o forte de Biden–, o discurso de posse deve sinalizar de que maneira o novo presidente vai tomar as medidas para unificar o país fraturado por atos e insurreições que culminaram na invasão do Capitólio, que deixou cinco mortos.

Primogênito numa família de quatro filhos, Biden tinha gagueira crônica na infância, condição que foi amenizada com o tempo, mas ainda é apontada como razão para seus discursos pouco empolgantes.

A campanha vitoriosa à Casa Branca no ano passado, porém, moldou em parte a oratória do democrata e convenceu assessores de que, com bastante treino e disciplina, ele é capaz de falar sem grandes sustos.

Depois de seu pronunciamento nesta quarta, Biden pretende assinar diversas ordens executivas para reverter medidas colocadas em vigor por Trump.

As ordens executivas são uma maneira de driblar justamente a maioria apertada no Senado –e a possível dispersão das atividades da Casa com o debate sobre o impeachment do republicano. As manobras, no entanto, podem ser alvo da Suprema Corte, que hoje conta com ampla maioria conservadora, de 6 votos a 3.

Logo na primeira semana de governo, Biden quer colocar os EUA de volta na OMS (Organização Mundial da Saúde) e no Acordo de Paris. Promete também vacinar 100 milhões de americanos contra a Covid-19 em 100 dias e aprovar o plano de recuperação econômica no valor de US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 10 trilhões).

Biden quer também suspender o banimento de entrada nos EUA a viajantes de alguns países de maioria muçulmana, parar a construção do muro na divisa com o México, símbolo inacabado do governo Trump, e impedir a separação de famílias na fronteira.

Depois de décadas atuando como senador no Congresso, o democrata sabe que os parlamentares desejam aprovar medidas populares que podem ajudar em suas eleições nos estados, mas que, muitas vezes, também aceitam em troca amargar medidas mais controversas.

O primeiro teste de Biden no Congresso será a confirmação de nomes escolhidos para seu gabinete –ao contrário do Brasil, indicados pelo presidente para determinados cargos no primeiro escalão precisam da aprovação do Senado americano.

O democrata já disse esperar que os parlamentares adotem uma estratégia dupla que permita realizar o julgamento de impeachment de Trump –acusado de incitação à violência que resultou no ataque ao Capitólio e na morte de cinco pessoas– e, ao mesmo tempo, aprovar suas indicações e as medidas de alívio à pandemia.

Com 81 milhões de votos, Biden deve ter cuidado para não tentar fazer com que sua chuva de promessas seja um eclipse do ativo político de seu antecessor.

Numa nação dividida, os caminhos para unidade são lentos e tortuosos.